Contos

O que diz uma fotografia

LUIZ PREZA
29/09/2020


O sol acabara de se levantar e arrastava o trânsito lentamente. O homem contava o tempo de uma barba grisalha, a pele cheia de dobras e a roupa desgrenhada. Ao meu lado, no banco do ônibus, tinha sobre as pernas “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec. Com as pontas amareladas dos dedos, a miúde, descerrava o livro e retirava de entre suas páginas uma fotografia; e sobrevoava o olhar por sua superfície; e a retornava ao livro, repetidas vezes. Uma lágrima hesitava prestes a despencar dos lábios tremelicosos. O peito arfava. Percebi um rosto amargurado. A duras penas parecia lutar contra o pranto que ameaçava desabar. O que de tão terrível mostrava aquela fotografia?
Dificilmente puxo conversa com estranhos. Sou uma daquelas pessoa, que dizem, “pouco comunicativa”. É meu temperamento. Talvez por excesso de autocrítica. Mas nesse caso, não me contive. Fui, bem devagarzinho, curvando o tronco, para que, num soslaio, pudesse descobrir o mistério que havia se tornado aquela imagem. Eu não queria despertar a atenção do homem. Inútil. Do arco do seu olho veio a flecha cujo alvo era minha indiscreta ousadia. O homem se inclinou em concha sobre o livro - um sinal de reprimenda que me desconsertara. Na defensiva, ele me fez parecer uma criança pega com o dedo enfiado na cobertura do bolo, antes de cantar os parabéns.
Com o livro numa das mãos e a fotografia na outra, forçou passagem empurrando minhas pernas. Então, ele girou sobre os calcanhares, postando-se de pé. Sem tirar os olhos de mim, acionou a campainha e atirou a fotografia ao banco onde estava. E antes de sair arrastando os sapatos surrados enfiados nos pés, despejou sobre mim o enigma:
- Se o senhor está tão interessado, fique com ela!
Meu coração quase saiu pela boca. Era como se um cavalo selvagem estivesse pulando dentro do peito. Enquanto tentava puxar o ar que não vinha, estiquei o braço e peguei a fotografia, ao perceber que o homem desaparecera.
“Se o senhor está tão interessado...” Ufa!
Com o tecido da camiseta, limpei as lentes dos óculos. Os olhos deslizaram ao longo de um surpreendente retrato em preto e branco. Tratava-se de um rosto abandonado pelo viço, tomado pela dor, pela desolação e por uma tristeza profunda refletida em traços largos. As mãos grandes e pesadas eram marcadas por sulcos finíssimos que cruzavam os nós dos dedos longos, retorcidos e rachados, ponteados por unhas que pareciam bicos de aves de rapina. Grossas veias traçavam o caminho do olhar pelos pulsos retos, largos e descarnados até as dobras do manto moldado pela cabeça. Ela era a imagem do medo. O medo que temos diante da solidão e do desamparo. Parecia que aqueles cansados olhos desistiram das súplicas, pois aprenderam ao longo da vida a nada esperar desse e do outro mundo.
Além da mulher, a fotografia mostrava ao fundo o arco superior do encosto de ferro de uma cama. No mais, paredes brancas e vazias. Não parecia apenas a fotografia de alguém vítima de maus tratos familiares; o indesejável, deixado à própria sorte numa enfermaria de hospital ou asilo; o que restara de uma vida à espera da estabilidade da morte. Ao contrário, aquele pedaço de papel estava impregnado de movimento – metáfora da mistura de drama e realismo, como mostram as imagens dos corpos forjados na pedra pelo cinzel ou na tela pelo pincel de um Miguel Ângelo - “procuro encontrar algo sobre a vida escondido num pedaço de pedra” – dizia o artista sobre suas esculturas. Talvez minha curiosidade fosse a mesma que movia o toscano em suas obras, com a diferença de só ter nas mãos uma fotografia.
“Se o senhor está tão interessado...” Mas por quê?
Procurei o reverso da imagem e lá estava sob uma mancha de café:
Vida, papel corte, morte
corte, papel vida, morte
Morte, papel vida, corte
Corte, vida papel, morte
Morte, vida papel, corte
Morte, corte papel, vida
No mais, talvez o leitor tenha a chave para esse misterioso segredo.


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