Contos

O segredo de Rosália

Luiz Preza
29/09/2020


Rosália enviara mensagem me convidando para passar o final de semana em sua casa. Percebi que ela queria muito conversar, talvez fazer um desabafo para acalentar a angústia que dominava seu espírito desde a recente morte, por infarto, de Ronaldo, seu marido.
Rosália disse que gostava muito de mim, a prima predileta e velha confidente - poderíamos tomar um vinho e você me faria companhia esses dias. Ficaria muito grata se me fizesse essa gentileza – ela dizia.
– Claro, respondi-lhe.
Chegara na casa de Rosália sexta-feira, à noitinha, e pude confirmar meu prognóstico.
- Desculpe-me incomodar, mas preciso de um alento, e em você posso confiar.
Percebera uma atmosfera estranha no ar, além do luto em si. Rosália me recebera com dois beijinhos, um sorriso farsesco e um sopro leve e quente de álcool.
Minha prima sempre fora uma mulher de grande beleza e altivez. Apesar de sua idade, o corpo se mantinha esguio e os traços do rosto perfeitamente equilibrados.
Ela me oferecera uma bebida. Eu agradeci, mas recusei – daqui a pouco -, e nos dirigimos ao sofá. Disse-lhe que a família estava consternada, e que eu faria o que tivesse ao meu alcance para confortá-la. Mais tarde, perguntou se eu me incomodaria em ficar na copa, lugar que ela considerava o mais agradável de seu apartamento. Então bebemos um pouco mais que uma garrafa de vinho, e fomos dormir.
Na manhã de sábado, encontrei a mesa posta no mesmo recanto aconchegante da casa. A luz natural atravessava as amplas janelas envidraçadas. Rosália pôs à mesa um farto e delicioso café da manhã – a toalha gravada com flores-da-esperança.
- Vou te contar uma intimidade – dizia Rosália - muitas manhãs, antes do desjejum, eu e ele fazíamos amor aqui. Era maravilhoso sentir todo aquele êxtase...
Ela descerrara os olhos, virara o rosto fugindo dos meus olhos. Abafara os ecos do passado, corrigindo a alça da camisola pendida do ombro, desviando o rumo da conversa - Vamos ao Centro? Preciso fazer umas compras, e aproveitamos para almoçarmos por lá, na confeitaria.
- Adoraria almoçar na confeitaria. Gosto muito de lá – respondi a minha prima. E fomos nos arrumar. Saímos ainda sob o sol anêmico da manhã.
Durante o trajeto, percebia em Rosália uma expressão de apaziguamento, mas também uma alegria superficial.
Já estávamos com algumas sacolas de compras quando entramos na confeitaria. Não havia tantos fregueses como em dias úteis. O metre nos ofereceu uma mesa próximo ao piano. Um jazz era tocado num ambiente tranquilo. Rosália havia comprado uma camisola branca, com rendas contornando o busto. Muito bonita. Depois de guardá-la, chamou o garçom e pediu o cardápio e um suco de laranja. Escolhemos os pratos e começamos a conversar.
- Ronaldo e eu gostávamos de caminhar pelo Centro da cidade nos finais de semana. Era um hábito percorrer pela manhã as ruas vazias. Passar pelas igrejas barrocas da Praça XV, seguir pela Rua Visconde de Inhaúma até encontrar a Igreja de Santa Rita de Cássia, para nos deliciarmos com a simplicidade do rococó que chegara ao Brasil. Ver os prédios antigos, sentir a solidez da pedraria e a altivez dos monumentos, sem o fluxo ininterrupto das pessoas. E terminar o trajeto almoçando aqui – dizia Rosália, enquanto bebericava seu suco de laranja.
Terminamos o almoço. Rosália reafirmou a estima que tinha por mim e que, por isso, iria me revelar algo terrível.
- Fui criada segundo princípios rígidos de educação e moral, você sabe. A verdade não escolhe hora para vir à tona e às vezes emerge da forma mais cruel possível nos trazendo profunda desilusão. No velório de Ronaldo, Francisco, seu amigo e sócio, me fez conhecer uma verdade pavorosa e desconcertante. O homem a quem entregara cegamente minha felicidade não passava de um desconhecido que viria me roubar o prazer de viver. Depois da revelação feita por Francisco, exigi que, por respeito a mim, prometesse discrição absoluta. Mas, Beth, eu não estava suportando mais carregar comigo o peso desse segredo. Por isso, pedi-lhe que viesse até mim. Apenas lhe peço que não o revele a mais ninguém, sem minha autorização, pois as consequências dessa revelação trariam a todos os familiares um enorme desgosto. Posso contar com você mais uma vez?
- Sim, prima – respondi-lhe com os olhos marejados.
- Ronaldo foi meu primeiro namorado; o grande amor de minha vida; a pessoa com quem dividi a cama por trinta felizes anos; que me dera duas filhas lindas e um neto maravilhoso. Ele conhecia cada centímetro do meu corpo, cada pedacinho mapeado em sua memória. Nunca resisti à maneira como empurrava os botões entre as casas dos panos que me guardavam, manipulando os dedos lubricamente sobre as mais íntimas tiras rendadas, pouco a pouco descobrindo minhas joias, até penetrarem minhas cavidades mais profundas...
Com os lábios trêmulos e olhos vitrificados que pareciam saltar sobre mim, Rosália dava mostras de desconfiança sobre minha lealdade.
- Pode confiar em mim, Rosália, pois eu nem teria como fazer essa revelação sem passar por leviana – disse-lhe.
Então, solicitou a conta ao garçom.
- Crédito ou débito, senhora?
- Débito, por favor, não quero ficar devendo nada a ninguém.
Eram dezessete horas e quarenta e cinco minutos quando saímos da confeitaria. Voltamos para casa, tomamos mais uma garrafa de vinho, conversamos muito, e fui dormir com tudo aquilo na cabeça.
Domingo almoçamos num restaurante das redondezas. Rosália parecia aliviada em dividir seu fardo. Disse-me que iria num salão de beleza, no shopping, para cortar o cabelo e fazer as unhas. Perguntei se gostaria que a acompanhasse, mas ela respondeu que eu já tinha sido muito solidária e calorosa.
Era o final de uma tarde cinzenta de outono. Ventava um pouco, o suficiente para revolver as cortinas, nas janelas. Escurecera. As luzes eram acesas dentro dos lares.
O que tenho a dizer agora, soube por intermédio de relatos.
O porteiro Jurandir disse que Rosália subira o elevador de serviço domingo à noite, por volta das nove horas.
- Ela estava estranha. Sempre sorrindo pra gente. Mas ontem não cumprimentou ninguém. Notei que sua maquiagem estava borrada, como se tivesse chorado – completara Jurandir.
O vizinho do apartamento de baixo reclamara do barulho àquela hora.
- Andava pela casa com passadas nervosas. O salto de seu sapato bramia tanto que tive de reclamar com o Jurandir.
A vizinha ao lado, ao levar lixo, percebera a dificuldade de Rosália para abrir a porta de casa.
- A chave da porta de seu apartamento tinia na fechadura e arranhava a madeira. Ela tremia muito. Dei boa noite, mas não respondeu. Era como se eu não estivesse ali, ao seu lado.
Luciana, que morava no apartamento do outro lado da rua, disse que enquanto aguardava a chegada da filha, acompanhara a movimentação de Rosália pela janela em frente.
- Sabia que acabara de ficar viúva. Conheço uma de suas filhas. Ela acendera duas luminárias. Pela altura do foco, uma parecia um abajur. Fora até à janela da sala e descerrou a envidraçada. Então, em contraste com a luminosidade ao fundo, vi a silhueta, como se fosse uma mancha vertical longilínea crescendo para o teto. Segundos depois, de forma abrupta, a mancha pendera no ar, retorcendo-se, balançando como um pêndulo, até ficar imóvel, definitivamente. Foi horrível – Luciana chorava.
Segunda-feira, ainda pela manhã, recebi o telefonema de Vânia, a filha mais velha de Rosália. Imediatamente fui para o apartamento de minha prima. A polícia pediu para eu comparecer à delegacia, pois Jurandir tinha dito a eles que eu estivera lá no fim de semana.
Rosália estava coberta por um plástico preto. Perguntei se poderia vê-la. Ela vestia a camisola que compramos sábado. A corda ainda pendurada no ventilador de teto. O banco trazido da cozinha, caído ao chão. Ao lado da pia, por lavar, as xícaras de café usadas no domingo. Numa poltrona, um livro de arte aberto numa página marcada com uma pena – O Grito, de Munch. Fui até a janela. Lá fora, as elevações e prédios se alternavam até quase o horizonte. Algumas nuvens cor de chumbo despejavam água sobre pequenas porções de paisagem.
Conforme prometera, jamais revelaria o segredo de Rosália.


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