Textos

Autorreferência - Capítulo 1

Luiz dos Santos Preza
21/08/2018


Manhãs de domingo, era hábito meu pai pedir que eu fosse ao jornaleiro comprar jornal e pacotes de figurinhas do álbum História Natural. Durante a semana, em dias aleatórios, podia ser que ele chegasse à noite com alguns pacotinhos, mas era aos domingos, logo pela manhãzinha, que ele dizia: - Vai comprar o jornal e vinte pacotes de figurinhas. Na época a procura pelas figurinhas daquele álbum era grande. Uma vez, ao chegar à banca de jornal, ouvi do senhor Jorge, jornaleiro, que infelizmente tinha acabado de vender os últimos pacotinhos de figurinhas. Ele pôde, então, constatar a decepção expressa pelo meu corpo todo, cuja boca, sem saber o que dizer, deixou passar as seguintes palavras: - Que horas que vai chegar mais? Depois daquele dia, seu Jorge, comovido pela cena do menino decepcionado, criou o hábito de deixar, aos domingos, reservados para mim vinte pacotinhos de figurinhas. Meu pai me aguardava enquanto eu corria pelas ruas do subúrbio trazendo a felicidade dominical bem guardada no bolso e as notícias amassadas nas mãos. No fundo, hoje percebo que a ansiedade era comum em ambos. Prova disso era o atropelamento da leitura das notícias pelo ritual de abertura dos pacotinhos, sempre cercado de expectativa e emoção, compartilhado pelo objetivo prazeroso de encontrar a figurinha que completaria uma página do álbum.
- Poxa, veio repetida!
Hoje percebo que abrir um pacote de figurinhas é um ato poético, pois libera uma potência de vida que estava aprisionada. Então, podemos compreender como pode ser maravilhoso estar sentado no sofá ao lado do pai, rasgando a fina tira de papel da parte superior de cada pacotinho com a lentidão que o ritual impõe, sempre com o cuidado para, eventualmente, não atingir nenhuma das figurinhas; sempre esperando daquele ato uma revelação semelhante à do mistério que nos trouxe a esse mundo. Ah, e aquele aroma específico exalado das figurinhas que parecem terem sido impressas naquele instante mesmo! Cada pacotinho rasgado é, então, uma descoberta precedida da crepitação dos nervos e das carnes. E quando a expectativa é correspondida, cada figurinha colada nos vazios reservados das páginas do álbum é motivo de deslumbramento. Contudo, a decepção também faz parte do caráter lúdico da vida e do colecionismo. As figurinhas repetidas, o surgimento do mesmo quando se espera o novo, faz ascender uma ambiguidade inerente tanto ao ato de colecionar quanto à experiência de viver - qualidade expressa pela frustração da repetição.
Em seu suposto último conto, Jorge Luís Borges escrevera que à medida que transcorrem os anos, todo homem tem a obrigação de carregar uma bagagem de experiências - o crescente fardo de sua memória. A identidade do homem assume forma com o tempo em função de suas lembranças pessoais. Nesse sentido, um álbum poderia, então, ser tomado como uma metáfora para a memória, assim correspondendo seus cheios e lacunas a alegrias e decepções vividas. O álbum aos poucos, também, vai sendo preenchido diante da realização das expectativas do colecionador. Contudo, sua graça também está em permanecer incompleto, inacabado, como uma potência que arde sem, contudo, se exaurir. O ato de colecionar, em certa medida, se confunde com a dinâmica dos movimentos da vida. Acumulação, experiência, colecionismo e memória parecem termos intrinsecamente relacionados à humanidade. O homem quando nasce é como se fosse um álbum vazio. Cada experiência humana equivale a uma figurinha colada no álbum, e é assim que pari passu homem e álbum constroem sua identidade.
É própria do colecionismo uma espécie de encantamento que transforma a frustração da figurinha repetida numa positiva replicação de expectativas. A positividade da repetição nasce da possibilidade da troca entre os diferentes. Quem domina a arte ou o saber do colecionador conhece o valor da troca como os viajantes reconhecem a importância das relações de alteridade. A troca é um ato de resistência do colecionador que subsume uma falta. A falta perde negatividade, superada pela busca do outro e pela simplicidade de um interesse comum. Quando Borges escreveu sobre o “fardo da memória” e o valor das “lembranças pessoais”, ele aludia a um sonho no qual sua memória fora eventualmente substituída por uma cadeia de sequências e lembranças alheias. O álbum, como metáfora da vida, representa para mim um correspondente de identidade porque significa uma forma de preservação e afirmação da memória pessoal.
O mundo é construído sob uma trama de representações sociais que mascaram a realidade. Segundo Serge Moscovici, “essas representações são tudo o que nós temos, ou seja, aquilo a que nossos sistemas perceptivos, como cognitivos, estão ajustados.” A intervenção dessas representações tanto nos orienta em direção ao que é visível como àquilo a que nós temos de responder. Como consequência somos aprisionados no que Kafka chamou de “cadeias da vida cotidiana”. Colecionar um álbum de figurinhas é um ato mágico e misterioso porque pode ser entendido como uma forma de libertação que pode transformar a vida como ela é - uma marcha rumo a esse cárcere da perda da identidade - em como deveria ser, ensinando como escapar dessa prisão cotidiana, e isso já é fascinante. Colecionar é pois uma arte, e se a arte tem uma função é a de libertar o homem tanto quanto a verdadeira literatura pode ensinar.
No próximo capítulo, vou falar sobre o outro objetivo de meu pai como colecionador de figurinhas.


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Comentários:

Resgatando a memória de um passado com o qual nós, leitores, nos identificamos, a crônica nos transporta para um passado em que também colecionávamos e aprendíamos, com a experiência, a viver alegrias e a amadurecer com a frustração. A figurinha repetida é a oportunidade de viver uma pequena dor, mas também de aprender a compartilhar. Representando a metáfora cotidiana das experiências humanas, nos leva a pensar na construção da nossa identidade ao longo da vida, quando acumulamos vivências, pessoas, emoções e sentimentos. O que nos torna parte da história humana, coletiva, pois as muitas convergências que nos aproximam, também nos tornam mais iguais. A vida é troca, é nos conhecer e nos reconhecer olhando o outro no grande espelho da vida. Finalmente, nos percebendo parte do todo, do grande álbum de figurinhas chamado humanidade e sua histórias.

Josilene Batista, Rio de JaneiroRJ 14/02/2020 - 20:44

Gostei muito da forma que aborda as experiências de vida, como espaços vazios em um álbum de figurinhas. E de como algumas dessas experiências podem mesmo se tornarem repetidas e por vezes decepcionantes, assim como abrirmos pacotinhos e só encontrarmos figurinhas repetidas. O difícil, nesse 'Álbum da vida' é conseguirmos vê-lo completo, de alguma forma.

Rodrigo Valente dos Santos, Rio de Janeiro / RJ 11/02/2020 - 14:41

Muito verdadeiro o texto. Inspiração no cotidiano e historia de vida do próprio autor do texto. Parabéns.

Sônia Cristina, Rio de janeiro 06/02/2020 - 09:58

Excelente texto. Parabéns. Forte abraço.

ALFREDO FÁISSAL ABDALLA WANOUS, Rio de Janeiro. 04/02/2020 - 21:23

Que belo texto, luiz! Com a sensibilidade que somente grandes homens possuem! Adorei! Muito bom!

agnes, Niterói 04/02/2020 - 18:59

Que belo texto, luiz! Com a sensibilidade que somente grandes homens possuem! Adorei! Muito bom!

agnes, Niterói 04/02/2020 - 18:58

Encerrei a leitura com sorriso no rosto com boas lembranças da infância e adolescência. Parabéns pela habilidade em despertar esses bons sentimentos.

Ricardo, Rio de Janeiro 04/02/2020 - 13:04

Que texto bacana, Luiz, o paralelo do álbum com os guardados" pelas vivências que vão construindo quem somos é muito interessante. A emoção da sua criança, das crianças que fomos, com cada pacote de figurinhas da vida será universal?
No aguardo do capítulo 2.
Abraço

Nicia, Niterói/RJ 22/08/2018 - 20:16

Importante a sensibilidade do artista ao externizar parte de sua história de vida, que de certa forma, o levou a descobrir, por meio de colecionador de figurinhas, sua vocação artística ao longo do tempo.

Sônia Cristina dos Santos Prêza, Rio de janeiro 22/08/2018 - 15:04

Muito bom de ler. Trata a vida de forma lúdica, além de despertar lembranças e sensações da infância. Parabens!

Nelise Duarte, Niterói 22/08/2018 - 09:11

Muito bom de ler. Trata a vida de forma lúdica, além de despertar lembranças e sensações da infância. Parabens!

Nelise Duarte, Niterói 22/08/2018 - 09:10

Muito bom de ler! Trata da vida de forma lúdica, além de remeter às lembranças da infância... parabéns pelo texto!

Nelise Duarte, Niterói 22/08/2018 - 09:02

Muito bom e agradável texto...os álbuns de figurinhas refletem não só a infância de todos ,como trazem memórias passadas familiar,alem de uma vida juvenil que ainda está por ser descoberta....muito interessante e curioso parar para observar todo esse contexto... parabéns!

Sabrina seljan, Rj 21/08/2018 - 19:38

Uma abordagem criativa, reflexiva e muito interessante! Nunca havia pensado desta forma!

Wagner, S.Paulo 21/08/2018 - 18:45

Colecionar é uma arte e um belo treino pra vida!
Nunca tive muito interesse em colecionar... seu texto me permitiu uma nova óptica sobre o assunto! Gostei muito! Obrigada!

Aline Rodrigues Pires Abondante, Rio de Janeiro 21/08/2018 - 18:39

Uma proposta bem interessante.
Uma metáfora imprevisível.
Mas que dá dimensões bem inovadoras.
Obrigada pelo presente.
É uma figurinha nova que completa uma página do meu álbum com grande alegria.

Iris, Bad Blumau 21/08/2018 - 18:21

Um texto que traz o frescor das lembranças da infância, justamente em momentos em que estamos carentes, como sociedade, da alegria e ingenuidade das crianças. Parabéns!

Darlan Cavalcanti Silva Gonçalves, Rio de Janeiro/RJ 21/08/2018 - 18:00

Muito interessante o paralelo. Leitura agradável. Flui bem natural. Conexões elaboradas e evolução com conteúdo. Parabéns. Orgulho e admiração com a competência do autor por ser uma amigo irmão querido de infância que a vida me presenteou. Uma figurinha das mais raras do meu álbum.

Monir Raggio Luiz, Rio de Janeiro /RJ 21/08/2018 - 17:35

Adorei o texto e fiquei curiosa... Como esta história vai se desenvolver?

Lenise Teixeira, Rio de Janeiro 21/08/2018 - 17:09

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